Reconhecimento público

Conheça a história dos(as) 15 educadores(as) mais indicados(as).

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Escola: Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Lúcia do Nascimento

Cidade: Juruti (PA) 

Ciclo: Ensino Fundamental I

Função: Professor

Isaac Lopes Ramos

 

Isaac Lopes Ramos continuou a estudar motivado por sua irmã, que o incentivou a terminar o Ensino Médio. Na época, entretanto, a única opção em Juruti era o magistério. Foi somente quando uma professora titular faltou que ele, ainda estagiário, foi escalado para substituí-la, e percebeu que a educação era seu lugar. 

 

A afinidade com as crianças foi instantânea e contribuiu para que seguisse a carreira. Ao longo de seus mais de 20 anos como professor, conta que foram inúmeros os projetos que desenvolveu, sempre com uma abordagem não conteudista, voltada ao comportamento dos estudantes em conexão com a realidade local. 

 

Uma dessas iniciativas foi o Projeto Jará. A proposta interdisciplinar envolveu diversos professores para trabalhar a questão de um lago de água doce - atualmente localizado dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA) em Juruti -, que ficava próximo à escola onde Isaac trabalhava. A prática de pesca e banho poluía o local. 

 

Assim, o professor decidiu trabalhar a conscientização das crianças. Entre contação de histórias, aulas teóricas e visitas de campo, a ideia era não apenas promover mais conhecimento e fornecer informações aos alunos, mas realizar uma mudança em seu comportamento. Ao mesmo tempo, eram debatidas questões como latitude e longitude, tempo de decomposição do lixo e qualidade da água. Na volta para a sala de aula, a ideia era que o estudante fosse protagonista das produções a partir de suas experiências práticas. Por isso, realizavam músicas, danças, paródias e trabalhavam a escrita com a confecção de panfletos sobre o lago. 

 

Essa veia do trabalho ambiental também se manifesta em outras propostas que têm conexão com a realidade jurutiense. Uma questão cultural observada pelo professor é que algumas crianças tinham o costume de matar animais, como passarinhos. Resgatando a ideia de transformar comportamentos a partir de informação e educação, Isaac mostrou porque o ato não era correto, promovendo uma conscientização sobre o ecossistema natural. 

 

Segundo o professor, desafios na educação acontecem a todo o momento. É necessário entender que crianças têm diferentes tempos de aprendizagem, por exemplo, e que, em muitos casos, como durante a pandemia, alunos poderão ter seu emocional abalado. 

 

“A própria Constituição Federal fala que a educação é um direito de todos. Por isso, o desafio maior é você, enquanto professor, ser criativo, estar preparado, se aperfeiçoar, buscar informações, se reinventar, reaprender. Procuro encontrar um contexto social que possa trabalhar dentro da comunidade. É o que eu faço todos os dias.” 

Escola: Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Rosa de Saron 

Cidade: Juruti (PA)

Ciclo: Ensino Fundamental I

Função: Professora

Ivanete Bezerra Castro

 

Ivanete Bezerra Castro interrompeu os estudos no Ensino Fundamental. Um trabalho voluntário despertou seu desejo de contribuir para transformar mais vidas. Para isso, precisou se preparar. Assim, acompanhada do marido, voltou para a sala de aula com 29 anos.  

 

Apesar de querer trabalhar com a Educação de Jovens e Adultos (EJA), depois do magistério, duas graduações - Pedagogia e Sociologia -, uma pós-graduação e passagens pela Educação Infantil e Ensino Médio, foi o Ensino Fundamental I que a atraiu.  

 

Com as turmas do quarto e quinto ano, a educadora percebeu que as crianças tinham grandes dificuldades com leitura, interpretação de texto e escrita. O cenário desafiador motivou Ivanete a pensar estratégias para mudar essas histórias. 

 

Assim nasceu o projeto Caminho da Leitura. Ao longo do ano, os alunos devem ler o maior número de livros à medida que vão escrevendo resumos das obras em um caderno. É a partir desse registro que a professora acompanha o pensamento reflexivo e crítico da criança, a ortografia, desenvolvimento cognitivo e outras habilidades. 

 

Além de eleger um leitor do mês, o projeto tem como culminância a realização da Feira do Leitor. Estrelas conquistadas ao longo das leituras são trocadas por um dinheiro fictício para compra de livros e brinquedos na feirinha, adquiridos por Ivanete. Os 300 reais investidos em 2017 transformaram-se em 1.500 em 2019. Mas ela garante que vale a pena: o aluno que mais leu em 2017 leu 17 livros e, em 2019, uma aluna contabilizou 273 obras. 

 

Emocionada, ela conta que o momento da pandemia foi um dos grandes desafios de sua trajetória por conta da dificuldade no contato com os estudantes, que têm acesso precário à internet. É comum que a educadora espere os pais das crianças chegarem do trabalho com o celular e ligue para tirar eventuais dúvidas sobre as tarefas.  

 

Ivanete também criou um projeto para professores. Depois de perceber que seus colegas tinham pouco conhecimento sobre tecnologia, ela organizou formações gratuitas no projeto Práticas Inovadoras. Deu tão certo que a ação já aconteceu em outras duas escolas da região. 

 

Sobre a valorização dos educadores, Ivanete diz sentir falta de mais amparo por parte de gestores e de colegas de trabalho para apoiar suas ideias e projetos. 

 

“Quando decidi ser professora, sabia que enfrentaria desafios, mas eles nos motivam a continuar e fazer melhor e não a ficar de braços cruzados porque tem gente precisando de nós. Paulo Freire diz que a educação não transforma o mundo, mas muda pessoas que mudam o mundo. Eu acredito que, a cada dia, podemos dizer que nascemos para fazer a diferença. Estou aqui para contribuir com a profissão e fazer a diferença na educação.”

Escola: Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Lúcia do Nascimento

Cidade: Juruti (PA) 

Ciclo: Ensino Fundamental I

Função: Professor

Jeon Luiz Rocha de Farias

Apesar do exemplo de seus irmãos e de conhecidos de Juruti, ser professor não estava nos planos de Jeon Luiz Rocha de Farias. Até que a convivência com crianças da comunidade e o momento em que se tornou pai mostraram que muitas pessoas precisavam de apoio, que poderia ser oferecido por meio da educação. Por isso, depois de trabalhar como secretário de uma escola, ele voltou para a sala de aula para concluir seus estudos no magistério. 

 

Mesmo com inúmeras experiências vividas na profissão ao longo de duas décadas, Jeon reforça que a pandemia de Covid-19 foi um dos momentos mais desafiadores devido à preocupação sobre a possível perda do vínculo entre os estudantes e a escola. Nesse momento, ele começou a pensar quais ações poderiam ser postas em prática para incentivar que os alunos continuassem pensando nos estudos. 

 

Foi necessário driblar algumas dificuldades, como infraestrutura, por exemplo. Considerando que são poucos os estudantes da região que têm acesso à internet e tecnologia, foram organizadas atividades impressas - nas três impressoras da escola, que não imprimem em tinta colorida. As orientações são enviadas via grupos no WhatsApp e alguns vídeos são produzidos, mas nem todos os estudantes têm a oportunidade de assistir. 

 

A questão acarreta outra preocupação, explica Jeon. Será que a escola está sendo inclusiva ou algumas práticas contribuem para excluir alguns alunos? Ele também tinha essa questão em mente quando enfrentou outro desafio em sua carreira: atender a um aluno do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ele precisou não apenas construir uma relação com o estudante, mas também mudar a concepção de alguns professores de que Jeon era o único responsável pela criança. O educador mostrou que aquele era um aluno da escola toda. 

 

Foi por meio dessa experiência que percebeu que o quesito interação entre os estudantes era algo que faltava na escola. Por isso, Jeon usou seu gosto por música e canto para promover mais respeito e situações de convívio e aproximação entre os alunos a partir de atividades culturais. Momentos breves com instrumentos e música já fizeram a diferença: alguns alunos formaram pequenas bandas e grupos. 

 

“Jamais imaginaria que iria assumir esse papel tão importante na sociedade. Via as pessoas estudando para ser professor e me questionava se teria esse domínio. Foi quando comecei a entender que as crianças e meus filhos precisavam de ajuda. Assim nasceu a vontade de assumir o meu verdadeiro dom. Hoje eu tenho o maior prazer de dizer que ajudo e orgulho de representar educadores que merecem todo o valor, mesmo que, muitas vezes, ainda sejamos deixados de lado.” 

Escola: Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Antonio Moreira Rocha

Cidade: Juruti (PA)

Ciclo: Ensino Fundamental I

Função: Diretor

Lídio Paz dos Santos

Quem vê Lídio Paz dos Santos ocupando, hoje, a posição de diretor da escola, não imagina que ele começou na educação por acaso. Cursou o magistério pois, na época, esse era o único tipo de Ensino Médio disponível. A vivência dia após dia em sala de aula mostrou que a educação poderia melhorar sua qualidade de vida. 

 

Esse é, inclusive, um dos motivadores pessoais do educador. De origem humilde, ele acredita que, assim como a educação mudou sua vida e de sua família, pode fazer o mesmo com os alunos. Muitos deles, inclusive, já alcançaram bons resultados seguindo as orientações do professor, que defende que essa influência positiva é mais importante do que notas ou o status aprovado ou reprovado. 

 

Uma das estratégias que Lídio utiliza para envolver toda a comunidade é a gestão democrática. Para ele, ouvir a opinião das famílias, dos estudantes e de organizações comunitárias tem sido um diferencial para que a escola consiga tirar do papel alguns projetos que, apenas com o apoio público, seria mais desafiador. 

 

O diretor explica que atuar em uma escola localizada na zona rural demanda algumas mudanças de comportamento, como uma adequação à maneira como as pessoas vivem, pois uma linguagem estritamente técnica não seria compreendida e dificultaria um processo de aproximação, prejudicando o andamento de ações e projetos. 

 

Nesse sentido, além da orientação técnica de agrônomos, a valorização dos saberes das famílias sobre agricultura foi fundamental para o projeto da horta na escola. A ideia inicial era que os alimentos plantados apoiassem a merenda escolar. Com a escola fechada por conta da pandemia de Covid-19, o recurso da comercialização da produção foi destinado a complementar a renda das famílias, bem como apoiar o custeio da impressão de materiais pedagógicos para os estudantes durante o período de atividades remotas. Professores, alunos e a comunidade cuidam do espaço que Lídio chama de eco-alfabetizador, pois pode ser usado em diferentes disciplinas para estudo. 

 

Esse processo de aproximação com a comunidade responde a um dos principais desafios da educação na visão do diretor: o distanciamento entre família e escola, que foi agravado pela pandemia. Para Lídio, falta uma relação de parceria entre pais e educadores. 

 

“A pandemia não tem sido fácil para ninguém, inclusive para a escola. Mas apesar de todas as dificuldades, continuamos nos empenhando. Aqui e ali, algum professor desanima, mas eu o encorajo de novo e digo que vamos conseguir, pois as crianças precisam das oportunidades de educação que nós tivemos. Acredito que a sociedade deve reconhecer o trabalho dos professores, principalmente, a partir do momento que ele começa a influenciar sua qualidade de vida, o que tenho tentado fazer.”

 

Escola: Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Manoel Pereira da Cunha

Cidade: Juruti (PA)

Ciclo: Fundamental I e II

Função: Professor 

Raimundo Damião Pantoja Soares

 

Vindo de uma família de carpinteiros e pecuaristas, Damião Soares, como é conhecido na região, teve grande influência de seu avô para que estudasse e buscasse um futuro diferente. Ele também recorda com carinho a influência de seu irmão mais novo, já falecido, que foi o primeiro da família a ingressar na faculdade.  

 

Depois de finalizar o Ensino Médio e trabalhar em um supermercado e em um restaurante, a nota do vestibular permitiu que ele escolhesse cursar Administração ou Educação Física. Nesse momento, sua paixão desde pequeno pela história do handebol falou mais alto. 

 

Durante sua trajetória na universidade, Damião não se contentou com o sonho de conseguir um diploma. Foi presidente do centro acadêmico e criou projetos que existem até hoje na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), como os Jogos Universitários de Parintins (JUPIN). 

 

O educador conta que aproveitou tudo o que a universidade poderia lhe oferecer: até disciplinas de outros cursos, como Educação Indígena, ele fez. Já ministrou palestras sobre o orgulho que sente de ser professor e a importância de estudar e não desistir. 

 

Atualmente, o amor pelo esporte é canalizado para projetos comunitários. Além de sua atuação na escola, Damião organiza práticas de handebol direcionadas especialmente a jovens, mas que atendem pessoas de 5 aos 50 anos. Os treinos passaram a acontecer quatro vezes por semana por conta da alta demanda - outras modalidades também são praticadas, como vôlei e futebol. Para financiar as práticas, além das contribuições das famílias, ele realiza rifas e venda de feijoada e pizza. Todas as aulas são gratuitas. 

 

Algumas famílias compartilham que o handebol ajudou os filhos que tinham depressão. Também há jovens que pararam de fumar e de beber e adquiriram hábitos saudáveis. Para Damião, isso acontece porque o esporte vai além da prática e agrega valores de cidadania e respeito. Ele próprio precisou mudar seus hábitos pessoais para servir de exemplo. 

 

Entretanto, a valorização dos educadores, principalmente na sua área, ainda é um desafio. Segundo Damião, é comum, pela falta de professores especializados na região, que gestores designem profissionais de outras áreas para ministrar Educação Física. Ele reforça que, desde que se formou na universidade, já fez cerca de 100 cursos para se manter atualizado e combater visões equivocadas sobre a profissão.  

 

“Essa falta de valorização dos nossos colegas, às vezes, nos faz querer desistir. Mas, então, pensamos que o nosso aluno precisa da gente, precisa de uma aula diferenciada e de um ombro amigo. O professor brasileiro não é tão valorizado como deveria. É claro que precisamos de valorização financeira, mas, principalmente, precisamos ser valorizados e respeitados dentro e fora da sala de aula.”